A seguranÇa das estruturas
No âmbito da engenharia civil e nas áreas de estruturas e materiais estão os especialistas que são consultados sobre as questões suscitadas quando da ruína ou colapso de elementos estruturais.

Os equipamentos públicos como o Estádio da Fonte Nova, o Viaduto da Estação da Lapa, pontes e prédios devem possuir estruturas cujos elementos componentes sejam capazes de suportar, o peso próprio, as paredes, revestimentos e demais cargas permanentes, além das multidões, veículos, vento e outras cargas variáveis, dentro dos níveis de segurança estabelecidos em normas.

O sistema portante das estruturas é composto pelas lajes, vigas e pisos no plano horizontal, e pelos pilares e/ou colunas no plano vertical, todos estes elementos levam as cargas até as fundações. No decorrer da sua vida útil, estes elementos vão perdendo em maior ou menor velocidade a sua capacidade portante. A oxidação das armaduras é o principal fenômeno a ser combatido  principalmente em cidades litorâneas como Salvador.

A responsabilidade técnica inicialmente é compartilhada entre as áreas de projetos, com a definição dos elementos, como os detalhes das armaduras de aço nas peças de concreto armado; dos materiais, que dosam e controlam os concretos e os aços; e das construções, com suas técnicas de execução e controle das etapas de moldagem ou montagem da estrutura propriamente dita. Quando estas etapas são cumpridas dentro da boa técnica, segundo as prescrições das normas, os componentes sadios ou "em condição de conformidade" cumprem com os seus objetivos.

Os monitoramentos feitos durante a construção, como os testes de carga antes da liberação para utilização, são procedimentos necessários para pontes, viadutos e grandes estruturas.

Durante a vida útil, os serviços de inspeção e recuperação buscam manter a capacidade dos elementos dentro das premissas de projeto, levando-se em conta o seu nível de deterioração e os carregamentos ou solicitações não previstos.

Daí a importância do cuidado com o arquivo dos desenhos de projeto, com os certificados dos materiais utilizados e os procedimentos construtivos. Devem fazer parte deste arquivo, os relatórios das inspeções e os documentos relacionados às intervenções e reparos realizados durante a vida útil.

A instalação de sensores em determinados elementos das estruturas permite a medida direta da sua resposta às solicitações dos carregamentos, e representa o estado da arte como método de avaliação da sua capacidade real. No ano de 2000, a AJL Extensometria monitorou através de sensores, 22 pórticos do Estádio da Fonte Nova, como amostragem dentre os 82 que suportam os 1.782 pisos das arquibancadas, visando avaliar o excesso de vibração verificado após o fenômeno das torcidas organizadas. O mesmo ocorreu no Estádio do Mineirão, no Estádio do Maracanã e no Estádio do Morumbi, onde reforços se fizeram necessários devido aos efeitos de fadiga.

Quantos equipamentos públicos e privados atualmente em utilização apresentam componentes com níveis de segurança insatisfatórios? A resposta a esta questão se impõe neste momento, alertando para a importância de priorizar inspeções, com delegação da responsabilidade técnica para os engenheiros das áreas afins. Um manual, com os procedimentos de inspeção e manutenção durante a sua vida útil, deve acompanhar a liberação de qualquer equipamento público para os usuários, estabelecendo as responsabilidades dos engenheiros, vinculando-as à sistematização das inspeções e monitoramentos dos componentes das estruturas conforme o manual, validando periodicamente a sua condição de segurança.

Os serviços de recuperação estrutural devem ser realizados nos estágios iniciais de detecção dos danos para minimizar os custos. No caso de estruturas mais degradadas, como o Estádio da Fonte Nova, a demolição dos pisos de recuperação inexequível será economicamente imperativa. A recuperação estrutural dos pórticos principais, para apoio de novas arquibancadas pré-moldadas, poderá ser factível técnica e economicamente.

A demolição parcial, com aproveitamento da arquitetura básica recuperada, associada à cobertura de novas e seguras arquibancadas, como no Estádio João Havelange, com certeza se apresentará como hipótese a ser considerada.


por Antonio João Leite
Engenheiro Civil pela UFBA (1977) e M. Sc. E. pela Universidade do Texas, em Austin (1980).
Atua nas áreas de projeto, monitoramento e reforço das estruturas